Domingo, 1 de Junho de 2008

Portugal, Um Retrato (a)Social

 

Portugalices...
 
Depois de um período de interregno, determinado pela necessidade de me tornar um filósofo profissional (em vez de permanecer no nível diletante), volto agora momentaneamente à “antena” para criticar o que me parece andar francamente mal com os (por)tugas.
Primeiro, a crise dos combustíveis e os comportamentos estranhos que alguns dos portugueses têm por causa dessa crise. Não compreendo, sinceramente, como é que há pessoas que passam horas a fio nas bombas para poupar, digamos, cinco a dez euros por dia (na melhor da hipóteses, e só alguns), e depois vão gastar esse “ganho” em coisas absolutamente triviais, como tabaco, bebidas, cromos do Nody e gomas para os filhos, gorjetas nos restaurantes, idas a Setúbal para ver o mar em domingo saloio, etc. Será que este pessoal não percebe a estupidez do acto de perder horas preciosas da sua própria vida para poupar euros que depois gastam desmioladamente ao desbarato? Na melhor das hipóteses, são sovinas – pois pobres não são, pois nenhum pobre que é pobre tem carro próprio, paga seguros, gasta dinheiro em combustível, etc. Na pior das hipóteses, são parvos, pois não se dão conta que duas horas de vida perdidas numa fila para a bomba de gasolina não podem ser compensadas por aquilo que esse mísero dinheiro normalmente lhes permite comprar depois. É a tacanhez no seu melhor. É a mentalidade portuguesa do Estado Novo a funcionar: poupe-se cinco cêntimos aqui e ali para se os gastar depois em coisas que não têm jeito nenhum.
Segundo, o Rock em Rio. Alguém já se deu ao trabalho de fazer contas por alto? Vejamos, 53 euros por dia vezes 90 000 pessoas (primeiro dia) dá um valor bruto de 4 770 000 euros. Agora, multiplique-se por 3 (dias). Dá: 14 310 000 euros por um fim-de-semana. Agora deduzam-se os custos (bandas, estrutura, impostos, etc). Digamos, 7 000 000 de euros na melhor (pior) das hipóteses? 7 310 000 é o saldo líquido, mais coisa menos coisa. Meu Deus! Estão a ver quanto é que a organização lucra com a “festa”? Não admira que eles queiram tornar o evento permanente. É um negócio das arábias! E até se percebe a mentalidade ganhadora e capitalista, assim como o mérito, dos organizadores. Mas, de onde aparece tanto dinheiro NUM PAÍS EM CRISE? Ouvi alguém dizer na TV que “Ah, pois, faz-se um esforço nestas ocasiões”. Tenham paciência! 53 euros é quase 15% do ordenado mínimo português! Por outro lado, há mais de 400 000 desempregados em Portugal, dos quais 60% são jovens à procura do primeiro emprego; quer dizer, mais de 200 000. Desses, aposto que cerca de 50 % foram ou vão ao Rock em Rio (ou a outros festivais de verão) pagar exorbitâncias para ouvir gajas que tocam mal, bêbadas e gajos do tempo da avózinha. De onde vem, pois, o “arame” que estes jovens desempregados gastam nos bilhetes, nas bebidas, nos jantares, na droga, nos transportes (incluindo carros novinhos em folha exibidos por muitos deles)? Bom, é óbvio que vem dos papás, das titis, das vovós, etc. Em muitos casos, os papás são ricos graças à exploração das pessoas que trabalham para eles. Noutros casos são ricos graças à especulação financeira ou em função de um qualquer trabalho que não tem qualquer utilidade social a longo prazo. Noutros casos ainda o dinheiro vem de empréstimos bancários que ou não vão ser pagos ou são pagos a taxas de juros altíssimas que servem para engordar banqueiros e especuladores, criando-se assim gritantes desníveis sociais. Enfim, uma mistura explosiva entre Rock em Rio e capitalismo. Eis a sociedade em que vivemos. Declama-se o mantra da liberdade e esquece-se quase sempre que a liberdade implica responsabilidade. Dar a ganhar 7 000 000 de euros a alguém num fim-de-semana ajudando assim a hipotecar o futuro de uma sociedade não me parece ser uma atitude responsável mas sim profundamente estúpida e egoísta. Não se trata de ser Velho do Restelo, trata-se de ver que algo está decididamente mal na forma como quase sempre inconscientemente conduzimos – mal – a nossa existência enquanto sociedade.
Para último lugar deixo o melhor... Perdão, o melhor do pior. Vamos chamar a esta maleita que tem afectado muitos portugueses de Viseu e arredores, incluindo “imigras” fans incondicionais o Tony Carreira e de outros “pimbas” (de facto nada pimbas, apenas mantendo essa imagem por razões comerciais e financeiras), a SSNF, isto é, a Síndrome da Selecção Nacional de Futebol. A SSNF é diagnosticável a olho nu. Os principais sintomas são: Primeiro, a sobrevalorização do futebol e de alguns futebolistas, elevando-se muitos deles à condição de semi-deuses, algo que já vem do tempo em que gregos veneravam os seus desportistas como seres sobrenaturais, e os romanos veneravam os seus gladiadores como heróis de guerra. Segundo, sobrevalorização da vida diária dos integrantes dessa selecção de “todos nós”. Terceiro, sobrevalorização da actividade diária dessa selecção. Quarto, esperança generalizada mas infundada por parte dos acólitos na obtenção de um resultado favorável no Euro 2008. Quinto, patriotismo desmedido que roça o ridículo, que ignora a cada vez maior ausência de fronteiras culturais e económicas entre Portugal e ou outros países europeus, que esconde a insatisfação generalizada mas tantas vezes confessada com a situação sócia e económica, etc.
Como qualquer doença tem causas, também há causas para a SSNF. A primeira é o sentimento de impotência que afecta muitos portugueses. Como muitos não conseguem ser felizes, ou ter a condição sócio-económica que desejariam ter, ou a saúde, ou as mulheres e os homens que desejariam, etc., optam por colar-se àqueles que têm todas essas coisas, isto na esperança de partilharem um pouco do seu sucesso e felicidade. A segunda é a manifesta falta de inteligência por parte de muitos que fazem criam ídolos que não lhes são de modo nenhum superiores. O facto do Cristaldo ser rico, ter as mulheres que quer (e aguenta, claro), ser famoso, ser o melhor jogador do mundo, blá, blá, não faz dele um ser superior. Pode fazer dele um tipo bem-sucedido (e quantos há que falham? Mas ao falhanço ninguém se quer associar), mas não é um Deus, nem um semi-deus. Nem sequer representa bem o país. Um tipo que está em Inglaterra há quatro anos e ainda não sabe falar inglês (facto notado por um meu amigo britânico do Man United) não pode ser muito esperto nem superior. Está certo, percebe da bola. E depois? Então o Ti Manel serralheiro não percebe de metais? E o juiz de direito não percebe de leis? Que faz deles seres inferiores comparativamente ao Cristaldo? Eu explico: NADA! O que há é uma impressão de maior valor por causa dos exorbitantes milhões que teimamos em pagar aos cristaldos, milhões que saem directamente dos nossos bolsos e que pagamos para vermos maus espectáculos (de futebol, como o que vimos ontem em Viseu). O que acontece é que a nossa sociedade é cada vez mais mediatizada e permite a entronização destes caramelos, normalmente pessoas sem qualquer talento a não ser para dar pontapés numa bola num jogo que raramente é emocionante e é comparativamente inferior a muitos outros (aliás, é óbvio que o sucesso deste jogo tem a ver com a tacanhez do ser humano, muitas vezes mais preocupado com o sangue e a canelada do que com actividades lúdicas que possam melhorá-lo). E isto leva-nos para a última causa do SSFN: a mediatização. A televisões e os jornais, à falta de melhor, não se cansam de apresentar reportagens sobre o tópico. Aliás, não são reportagens: são descrições pormenorizadas da futilidade e da inutilidade intrínsecas da vida da Seleção e dos seus integrantes. Essas mensagens sem valor e sem sabor entram no subconsciente das pessoas mentalmente mais fracas, estupidificando-as, incutindo-lhes um desejo de vitória alheia em causa própria, tornando-as invejosas, gananciosas, criando-lhes falsas expectativas de sucesso. Desenganem-se! Mesmo que Portugal ganhasse o Euro, coisa que eu muito duvido (até duvido que ganhem um jogo, que seja), isso não iria melhorar substantivamente a vida dos portugueses. Continuaríamos a ter fome, miséria, aumentos dos combustíveis, especulação desenfreada, desníveis sociais, problemas ambientais, etc.
O que vale é que, tal como muitas constipações que vêm e vão sem que nada façamos para as curar, ou como um placebo que se dá a um doente mental, também a SSFN é doença ou placebo de pouca dura. Depois da pseudo euforia, da pseudo bonança, virá a tempestade novamente. Nessa altura o Cristaldo poderia doar grande parte da sua fortuna para os pobres e os necessitados, ficando apenas, como a maior parte dos portugueses, com menos do que nada para sobreviver. Ele não quer isso, claro. Ele sabe bem o que isso é, mas já o esqueceu, pois compra carros de 500 000 euros em vez de doar esse dinheiro a quem precisa (e a FPF ainda lhe paga, com dinheiro dos nossos impostos, para ele fazer uma coisa que gosta e o promove!) Coitado do Cristaldo, não vê que seria esse acto de generosidade faria dele um semi-deus, e não a parvoíce generalizada que lhe invade o (assim parece) diminuto cérebro de adolescente serôdio. Mal por mal, dêem-me o Figo. Esse ao menos tem algum sentido de responsabilidade social.
E depois, por que raio o Presidente recebe estes tipos? São representantes da nação? Ok! Então e os outros que representam a nação mas em eventos não mediáticos. Por exemplo, investigadores que vão lá para fora desenvolver trabalho científico deveriam ou não ser recebidos pelo PR antes de irem? Deveriam? Não são? Porquê? Que raio de critério é este. É o critério mediático? Isto está perdido... Se nem o PR se safa, que dizer dos outros. Talvez o José, aquele José que acha que liderar não é mandar, porque mandar é castrar. Mas alguém tem dúvidas que quando o josé tem de mandar manda mesmo? E alguém tem dúvidas que quando o José tem de queimar alguém queima mesmo? Hipocrisia... Nah! É o Mourinho a vender livros dos amigos com conversa fiada. É para fazer mais uns cobres. Ele é amigo do seu amigo.
 
PS: Também adoro a dominguice. Eles com roupa que é suposto ser casual mas que lhes custa metade do ordenado. Depois vão fazer um crédito bancário para pagar a água e a electricidade lá de casa. Elas com roupa justa para salientar os imensos matacos mais os imensos pneus de gordura, cujos perfis são agravados por calças e saias de cintura baixa. Incrível! Por muito que os difarcem, não conseguem. Querem ser a Soraia, mas dão-se ares ridículos de Bicha Castello Branco. Depois são os putos mimados a chorar por gelados e bugigangas. Normalmente os pais não lhes ligam nenhuma porque estão a galar a mulher do próximo, e elas os maridos das outras que têm aquela roupa que elas acham fixe mas que, invejosamente, deitam abaixo com as línguas venenosas. Há também artolas (como eu) a passear cães ou a andar de bicicleta com ar de superioridade, como se fossem donos do mundo e senhores de todo o saber. Parvos, claro! Há barrigudos que passam o dia a ver o mar e a beber cerveja na esplanada. Há polícias em patrulha que não patrulham nada e passam o turno na conversa, ao telemóvel e a fumar. O Domingo é um mimo! Para descobrir os gostos do portuga médio, vá-se ao domingo àqueles locais que aos dias de semana estão (graças a deus!) vazios. É um espectáculo o digno de um retrato (a)social.
 
(Imagem: Par de Labregos, disponivel em http://galeriatambemgaliciaportugal.blogspot.com/2007/12/sargadelos-peas-do-nosso-encontro_28.html )
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Filosofado por No mercy às 18:12
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